Como foi definido pela Organização Nacional Africana de Centros de Informação
e Pesquisa para a Circuncisão (NOCIRC), a circuncisão é a remoção cirúrgica
(corte) da pele que normalmente cobre a glande (cabeça) do pénis.
Este capítulo é dedicado apenas à circuncisão de recém-nascidos, isto
é, a remoção do prepúcio das crianças, porque aqui os pais tomam uma
decisão em representação de alguém que é demasiado jovem para tomar
uma decisão por si próprio. Uma vez adulto, um homem poderá presumidamente
ser capaz de decidir por si próprio se ter sido circuncidado lhe proporcionou
uma opção que foi já tomada pelos seus pais! Os defensores do aborto
também usam a palavra “opção” para permitir às mulheres matar os seus
filhos ainda não nascidos, e aqui nós estamos a falar somente sobre
permitir que a um criança se tire parte da sua própria anatomia numa
operação dolorosa.
De acordo com o NOCIRC, os médicos dos países de língua inglesa começaram
a circuncisar bebés a meio do século XIX “para evitar a masturbação”,
a qual alguns médicos diziam ser a fonte de muitas doenças, incluindo
a epilepsia, tuberculose e loucura. Os médicos têm dado outras razões
a partir daí, mas todos eles, incluindo aqueles que dizem que a circuncisão
previne o cancro do pénis, o cancro do colo do útero e doenças venéreas,
têm sido contestados de acordo com o NOCIRC.
A circuncisão masculina está mais vulgarizada no mundo que a sua equivalente
feminina. Tal como a circuncisão feminina, a circuncisão masculina é
normalmente praticada por questões religiosas e culturais. No entanto
é a circuncisão feminina que é mais publicitada nos meios de comunicação
social ocidentais. As feministas estão bem determinadas, mas apenas
contra a Mutilação Genital Feminina (FGM), e quando interrogadas sobre
a Mutilação Genital Masculina (MGM), desdenham simplesmente que “é apenas
um pequeno pedaço de pele” ou que “ não é um assunto das mulheres”.
A sua atitude, é ela própria um assunto dos homens. A circuncisão masculina
é uma mutilação genital, e deve ser combatida por todos os que se opõe
à circuncisão feminina.
Porquê a Circuncisão?
De acordo com o Dr. Brian Morris, a circuncisão tem prós e contras, mas
ele é um forte apoiante da sua prática. (consultar www-personal.usyd.edu.au/~bmorris/circumcision.shtml)
Gostaria de levantar dois assuntos de carácter geral antes de discutir
os seus argumentos em detalhe:
1. Como alguns dos seus argumentos têm a ver com os benefícios da circuncisão
masculina para as mulheres, são irrelevantes. Afinal de contas, quantos
argumentos existem sobre a saúde das mulheres que tenham a ver com os
efeitos nos homens? Nenhum!
a)
Os seus argumentos sugerem que a circuncisão é o tratamento natural e normal
nas crianças masculinas, e a sua preocupação é como abolir uma prática
estabelecida. Um anti-circuncisionista pode preferir começar por fazer
tabula rasa e perguntar porquê havemos de querer perpetuar uma
prática que, como um sacrifício animal, surge de um mito ou superstição.
Devemos olhar para o assunto de um modo objectivo, e exigir que este
procedimento cirúrgico se justifique a ele próprio.
Agora, então, as razões do Dr. Morris, juntamente
com os meus comentários sobre elas:
A maior desvantagem do prepúcio é que ele cria um ambiente não saudável
entre si e o pénis, onde células mortas, secreções, urina e bactérias
proliferam, podendo surgir infecções, mesmo que a zona seja lavada com
regularidade. Mas o mesmo acontece com o hímen, e ainda nenhum médico
ousou sugerir que se deveria remover de forma rotineira o hímen à nascença.
Outra razão é que o prepúcio torna a pele do pénis por baixo mais fina
e húmida (em comparação com a mesma área de pele num pénis circuncidado),
o que representa uma barreira mais fraca contra as infecções. Mas o
pénis intacto é mais sensível à estimulação erótica.
Outro problema é que o prepúcio aumenta a área superficial da pele, e
assim aumenta a probabilidade de uma infecção a penetrar. Este mesmo
ponto pode ser usado para sugerir uma diminuição cirúrgica do tamanho
de todos os pénis para um tamanho uniforme e medicamente determinado
como óptimo. Mas quantos homens, para não mencionar as mulheres, concordariam
com isto? Por outro lado o relativamente frouxo prepúcio é mais propenso
que o pénis circuncidado a sofrer danos durante a penetração, permitindo
que a infecção entre na corrente sanguínea. Certo, mas o mesmo pode
ser dito relativamente aos lábios menores e as culturas ocidentais não
referem qualquer corte nos genitais femininos como mutilação.
Fazendo esta operação mais tarde causa ao paciente preocupações que podem
ser evitadas, diz ele. Mas pelo menos permite ao indivíduo optar. Opção
para os homens não circuncidados! Tendo a sua operação mais tarde também
aumenta a probabilidade de ficar com uma cicatriz visível. Novamente,
é (ou poderá ser) uma opção individual — uma vez que já é suficientemente
maturo para entender as implicações.
O Dr. Morris diz que não estão demonstrados quaisquer efeitos psicológicos
negativos da circuncisão e a dor causada pela operação pode ser evitada
usando anestésicos. O NOCIRC, o NOHARM e outros grupos anti-circuncisão,
no entanto, citaram estudos indicando que os homens circuncidados tendem
a ser mais agressivos que os intactos, o que pode contribuir para comportamentos
anti-sociais.
Ele defende também que o “smegma” – a película de células mortas da pele,
bactérias, etc., sob o prepúcio – produz um odor que algumas pessoas
consideram ofensivo. Os órgãos genitais da mulher de todas as idades
também têm “smegma”, e ainda ninguém sugeriu que se deveriam cortar
os lábios da vulva para o evitar, apesar de também algumas o considerarem
ofensivo.
Há por vezes problemas físicos, incluindo infecções, que podem ser prevenidas
ou minoradas através da circuncisão. Estas são, normalmente, roturas
no prepúcio causadas pelos pais quando tentam lavar o pénis das suas
crianças. A formação aos pais pode evitar este inconveniente. O prepúcio
pode ser entalado no feixo das calças quando o rapaz se veste. No entanto,
por vezes as crianças entalam os seus dedos nas portas e nunca ninguém
pensou amputar-lhes os dedos por prevenção. Os idosos nas casas de repouso
– especialmente se sofrerem de Alzheimer – são mais fáceis de cuidar.
Sem dúvida, e os doentes lobotomizados são também mais fáceis de cuidar.
Este é um argumento desumano e cruel.
O Dr. Morris diz que em 1982 foi noticiado que 95% das infecções do
aparelho urinário em rapazes com idades compreendidas entre 5 dias e
8 meses se davam em rapazes não circuncidados. No entanto, isto apenas
afecta 3 em cada 100 000 rapazes, ou seja isto não é um factor que se
deva em ter em conta. O cancro do pénis ocorre quase exclusivamente
em homens não circuncidados dos Estados Unidos. No entanto a incidência
é mais baixa que o cancro da mama entre as mulheres, ou seja, por esta
lógica devemos remover tecido mamário das bebés, como medida preventiva!
Foram feitos estudos em que as mulheres preferem o cheiro e a imagem
de um pénis circuncidado – especialmente para sexo oral. Por esta lógica
também, se a maioria dos homens preferem ver e sentir seios cirurgicamente
aumentados, deveríamos forçar todas as mulheres a fazer implantes mamários.
Mais uma vez, é irrelevante e ofensivo usar os desejos das mulheres
como argumento para um procedimento cirúrgico compulsivo nos rapazes,
é uma violação aos seus direitos civis.
Há aparentemente uma indicação de que homens não circuncidados têm um
maior risco de sofrer de disfunções sexuais. Penso que aqui o Dr. Morris
se refere e ejaculação prematura. No entanto, eu tenho também ouvido
falar de homens que devido à circuncisão involuntária ficaram tão insensíveis
que surpreendem as suas companheiras começando a falar durante o acto
sexual. Deste modo parece que a circuncisão produz um dano de tal ordem
à sensibilidade sexual dos homens que contrabalança qualquer possível
benefício para as mulheres no sentido de estas atingirem mais facilmente
o orgasmo.
O Dr. Morris refere que apenas uma pequena proporção de rapazes sofre
de doenças causadas pela própria operação de circuncisão, citando um
estudo de Wiswell:
Num estudo que efectuou com 136000 rapazes nascidos nos hospitais
das forças armadas americanas entre 1980 e 1985, Wiswell verificou as
taxas de complicações sexuais em circuncidados e não circuncidados.
Em 100000 que foram circuncidados, 193 (0,19%) tiveram complicações,
sem nenhuma morte, mas em 36000 que não foram circuncidados as taxas
de complicações foram de 0,24% incluindo 2 mortes.
Este estudo não é conclusivo, visto
que não foi feita qualquer menção a outros factores, tais como o grupo
socioeconómico. É perfeitamente possível que o grupo circuncidado pertencer
a uma categoria socioeconómica mais elevada e, por isso, menos propensa
a desenvolver complicações.
O Dr. Morris critica a NOCIRC pela
comparação da circuncisão masculina e feminina. Defende que a circuncisão
feminina é análoga à remoção completa do pénis. De facto, mesmo a remoção
do clitóris (que é apenas uma das formas de circuncisão feminina), continua
a permitir à mulher a função reprodutora, enquanto a remoção do pénis
ao homem impede a sua reprodução natural. O prepúcio contém muitas das
terminações nervosas do pénis, ou seja, o clitóris e o prepúcio têm
funções semelhantes: A estimulação.
O Dr. Morris acrescenta posteriormente que “os homens não circuncidados
têm uma incidência de cancro na próstata que é o dobro à dos homens
não circuncidados”. No entanto, pode ser que na América os mesmos grupos
étnicos que mais circundam os seus filhos são os que têm menor incidência
de cancro da próstata. Esta hipótese é apoiada pelo facto de que “na
América, a NHSLS notou as maiores taxas entre os brancos e com melhor
educação.”
“Alguns estudos comprovam taxas mais altas de cancro no colo do útero
em mulheres que tiveram um ou mais parceiros sexuais não circuncidados”,
diz ele. Penso que é absurdo permitir que um problema de saúde das mulheres
determine o comportamento dos homens mais do que um problema de saúde
dos homens determine o comportamento das mulheres.
Há indicações de que a circuncisão reduz o risco de contracção de SIDA
quando não é usado preservativo durante a relação sexual. No entanto,
estas “indicações” têm pouco peso quando os médicos encorajam o uso
de preservativo como meio mais seguro de ter relações sexuais.
O Dr. Morris admite que a circuncisão tem realmente alguns riscos, tais
como sangramento excessivo, infecções, a possível necessidade de cirurgia
adicional, bloqueamento do nervo dorsal do pénis e morte. Mas não considera
qualquer destes riscos sério ou frequente.
Conclusão
A questão da dimensão dos vários riscos e benefícios
da circuncisão continuará a ser obviamente controversa. No entanto,
nenhum dos riscos ou benefícios considerados parece ser de grande importância
para os homens. Sendo assim, a questão dos direitos humanos deverá prevalecer.
Por outras palavras, o homem deverá poder optar se pretende ou não esta
operação irreversível, o que significa que não deverá ser feita, pelo
menos, antes que atinja a adolescência.
É importante salientar que esta operação não é completamente reversível.
O prepúcio pode ser restaurado como forma de cobrir a glande, no entanto,
as terminações nervosas não podem ser substituídas. Dado que a minha
posição aqui é filosófica, pode ser possível argumentar com razões de
natureza religiosa para ultrapassar estas considerações sobre direitos
humanos, caso os pais sejam judeus ou muçulmanos. De qualquer modo,
não sou muito complacente neste ponto.