Introdução
Este capítulo faz um breve apanhado de algumas
formas históricas do feminismo. Não se pretende fazer um ataque ao feminismo,
visto que este é um objectivo do resto do livro. Pretende-se em vez
disso, fazer uma retrospectiva histórica da ideologia feminista e do
movimento político, que ficou conhecido pelo Movimento de Libertação
das Mulheres, ou Movimento de Mulheres. A única diferença entre estes
dois termos é que a palavra “feminismo” é por vezes usada para se referir
simplesmente a teoria ou ideologia, enquanto os termos “movimento de
mulheres” ou “movimento de libertação das mulheres” referem
-se também a actividades políticas.
O meu estudo não é completo nem actualizado. Particularmente, a Internet
e o aumento dos movimentos internacionais de Homens/Pais estão a tomar
um impacto que só os historiadores e escritores futuros podem descrever.
O meu objectivo é apenas indicar os principais temas e exigências do
feminismo nos últimos séculos para contextualizar os assuntos abordados
nos capítulos anteriores e outros, que eu ou outros poderemos abordar
no futuro.
Feminismo individualista/liberal
O feminismo individualista recebeu a sua primeira formalização com a obra
“A Vindication of the Rights of Woman” de Wollstonecraft (1792).
Isto foi durante a teoria social e política individualista no decorrer
do século XVIII, que terminou com o segundo tratado do governo de John
Locke, de acordo com o qual a lei suprema era o bem estar da população.
Foi um passo modesto do princípio estabelecido de olhar para vários
categorias da população, tais como as mulheres, e perguntar o que é
que o sistema fez por elas. Do nosso actual ponto de vista, podemos
perguntar quais as tendências das pessoas que decidiram quais as categorias
de pessoas a investigar, mas isto é outra questão.
Charvet (Feminism, London: Dent, 1982) descreveu “individualismo”
como “o entendimento de que a ordem política e social assenta na possessão
de direitos pelos indivíduos ... o principal conteúdo dos direitos é
geralmente entendido como consistindo na liberdade do indivíduo para
fazer o que quer sem ser incomodado por outros” ( págs. 6-7).
Foi este tema que Wollstonecraft referiu 192 anos antes fazendo notar
que quando alguém se refere a “pessoas” ou “humanos”, refere-se sempre
a homens. As mulheres são vistas principalmente em relação aos homens,
isto é, como companheiras sexuais e educadoras das crianças dos homens,
etc.. Wollstonecraft afirmou que as mulheres devem ser vistas acima
de tudo como pessoas de pleno direito, e só depois como donas de casa
e esposas, etc. dos homens.
Wollstonecraft baseou a sua reivindicação ou pretensão no facto de as
mulheres, tal como os homens, serem superiores aos animais, isto é,
seres racionais. Considerou irrelevante que os homens fossem melhores
a fazer certas coisas que as mulheres. Posto que as mulheres eram racionais,
eram capazes de se governarem a si próprias. Os homens diferem nos seus
talentos, mas isto não foi usado como um argumento contra os direitos
políticos iguais para todos os homens.
Wollstonecraft não concordava,
é claro, que as mulheres fossem menos dotadas que os homens. O seu ponto
de vista era que mesmo as pessoas que pensavam que as mulheres eram
menos dotadas deviam concordar que elas deveriam ter direitos de seres
humanos.
Uma controvérsia importante em “A Vindication of the Rights of Woman”
é que os homens usam o sistema educativo para ensinar as raparigas a
desempenharem funções “de mulheres” que os homens lhes destinaram. Este
é, de facto, um assunto corrente em toda a literatura feminista. Wollstonecraft
exigiu igualdade de direitos entre homens e mulheres. Não disse muito
sobre direitos políticos para as mulheres, apesar de haver indicação
de que também pretendia escrever alguma coisa sobre este assunto. A
obra The Subjection of Women, de John Stuart Mill, no século
XIX, constituiu um trabalho importante, escrito sob influência da sua
esposa, Harriet Taylor. As propostas de Mill eram semelhantes às de
Wollstonecraft, mas iam mais além, dizendo que as mulheres deveriam
votar. No que se referia ao emprego, também aqui ele diz que as mulheres
deveriam ter liberdade de entrar em lugares da sua escolha (incluindo
o casamento e a educação das crianças, se fosse essa a sua opção).
O fundamental da filosofia de Mill, o Utilitarismo, é a ideia de escolher
o melhor para o maior número de pessoas. De acordo com algumas autoridades
sobre o trabalho de Mill, a noção de “igualdade”, que é a base geral
dos escritas feministas, parece não transparecer dos princípios utilitaristas.
Não é logicamente necessário que “igualdade” entre diferentes grupos
ou indivíduos numa sociedade conduza inevitavelmente ao maior bem para
o maior número de pessoas.
Podemos argumentar, por exemplo, que algumas pessoas são melhores a
produzirem riqueza que outras. Deste modo, se pretendermos maximizar
a riqueza de uma sociedade, temos que estabelecer direitos e privilégios
especiais para estas pessoas de modo a que elas possam atingir o nosso
objectivo global de maximizar o bem estar material da população como
um todo. Mill teve que juntar o princípio da igualdade em quase tudo
antes de poder construir o seu argumento feminista. Apesar disso, tentou
demonstrar como toda a gente beneficiaria da garantia da igualdade legal
entre mulheres e homens, visto que a mesma traria um ganho na quantidade
de felicidade para a espécie humana. Isto, porque de acordo com o trabalho
anterior de Locke, a “servidão” das mulheres no casamento tornava muitas
delas infelizes.
Mill disse também que a espécie humana beneficiaria se o potencial da
mulher fosse libertado, educado, e empregado no benefício de todos.
E os casamentos seriam mais felizes se homens e mulheres fossem igualmente
bem educados. Ele acreditava que a felicidade no casamento dependia
dos esposos serem tão similares quanto possível.
Em resposta à objecção de que as mulheres não têm as mesmas capacidades
que os homens, Mill apoiou a posição Wollstonecraft de que isto parecia
verdadeiro devido apenas ao modo como eram educadas. Se fossem educadas
do mesmo modo que os homens, deveriam ter as mesmas capacidades. Defendeu
também que como as mulheres eram já nitidamente capazes de executar
uma grande variedade de tarefas, isto provava o seu direito a uma maior
gama de empregos.
No decorrer do século XIX, as feministas obtiveram maiores oportunidades
de formação em escolas e universidades e admissão a uma gama mais alargada
de profissões. As leis relacionadas com o divórcio, os direitos de propriedade
das mulheres casadas, e controlo das crianças no casamento foi também
modificado no sentido de favorecer as mulheres. Também no início do
século XX, pelo menos, as mulheres ganharam privilégios em muitos países
ocidentais. A primeira vitória para as feministas foi obtida em 1869,
quando as mulheres tiveram direito de voto no estado americano de Wyoming,
e o primeiro estado soberano a dar direito de voto às mulheres foi a
Nova Zelândia, em 1893. O primeiro país europeu a emancipar as mulheres
foi a Finlândia, em 1906.
Após a emancipação das mulheres ser obtida em muitos países, a Segunda
Guerra Mundial interveio. Isto causou possivelmente uma brecha na luta
política feminista, possivelmente porque elas não queriam ser forçadas
a servir como militares na linha da frente. Seria razoável esperar delas
esta obrigação, visto que continuaram activas durante a guerra. E quando
a guerra terminou, as pessoas precisaram de algum tempo para esquecer
os homens que perderam a vida ou os membros na guerra. Coole (Women
in Political Theory*, Sussex: Wheatsheaf Books, 1988, p. 234) caracterizou
esta brecha como “uma ressurgencia de ideias e práticas antifeministas”.
Mas seguramente, após um intervalo conveniente, uma mentalidade de paz
envolveu as sociedades ocidentais de modo que a hipocrisia de algumas
exigências de “igualdade” feministas não eram tão obviamente absurdas.
É natural que a maioria das pessoas prefira ver a guerra como um pesadelo
do qual é preciso acordar o mais rapidamente possível! E de uma perspectiva
feminista insensível, os homens são sempre dispensáveis.
Este período pós-guerra constitui uma autêntica segunda vaga de feminismo,
um tempo em que parecia natural a sociedade focar-se mais no modo como
o papel da mulher na família evitava que elas tivessem uma carreira
com as exigências das dos homens. Esta atitude implica que o papel da
esposa e mãe seja inferior ao do de assalariada no local de trabalho
(ou escrava do salário, como há quem diga).
Um livro na linha de pensamento feminista individualista tradicional
é o The Feminine Mystique de Betty Friedan (1963), que seguiu
de perto os calcanhares de Simone de Beauvoir (1953) em The Second
Sex. O objectivo de Friedan era que a sociedade e as vidas das mulheres
se organizassem para maximizar as capacidades das mulheres terem uma
carreira e uma família. Ela pensava que na classe média americana, suburbana
e branca, as donas de casa heterossexuais estavam sujeitas a sentirem-se
entediadas e vazias, a não ser que tivessem um emprego fora de casa:
A ciência não deverá deixar as donas de casa demasiado cansadas.
Deve sim, preocupar-se em criar a ilusão de um sentido de realização
de que as mulheres precisam (The Feminine Mystique, 4th
Dell Printing, June 1964, p. 172).
Claro que isto não deverá ser problema em países e classes sociais onde
abundam os electrodomésticos. Mas o que é mais interessante aqui é como
Friedan parece ter como verdade que qualquer sentimento de realização
por parte das donas de casa seja uma “ilusão”. Este é um ponto de vista
muito subjectivo. Ironicamente, Friedan não sente, obviamente, que a
realização de uma carreira fora de casa seja ilusória, quer para o homem
quer para a mulher, como não acredita que uma mulher possa ser ao mesmo
tempo feminina e completamente humana:
Escolhendo a feminilidade em vez de uma identidade completa mas dolorosa,
nunca encontrando o âmago de si próprias que se obtém não da fantasia
mas da compreensão da realidade, estas raparigas estão destinadas a
sofrer de um aborrecido e difuso sentimento de inutilidade, inexistência,
não envolvimento com o mundo que se pode chamar anónimo, ou falta de
identidade, ou apenas sentir um problema que não tem nome (The Feminine
Mystique, 4th Dell Printing, June 1964, p 172).
Esta é a mesma confusão de papeis sexuais que tem afectado muitas feministas.
Qualquer coisa que elas gerem para comparar a feminilidade com falta
de identidade. O que isto demonstra realmente é a frustração que sentiram
as escritoras feministas com a necessidade de se conformarem com modelos
femininos, ao mesmo tempo que quiseram converter mais mulheres às suas
personalidades mais masculinas. Quiseram tirar poder à mulher feminina
e atractiva, cuja personalidade era centrada na cooperação com o homem,
e criar um grupo de mulheres cuja personalidade era centrada na competição
com os homens. Claramente as feministas lésbicas são apenas o extremo
deste movimento lésbico encoberto. Desta perspectiva, o famoso “problema
que não tem nome” de Friedan é actualmente o “problema” da heterossexualidade.
Não se lhe pode dar um nome, porque o seu verdadeiro nome repelirá os
convertidos. Sobre isto, alguns consideraram Friedan menos radical que
as suas predecessoras:
O livro The feminine Mystique, de Betty Friedan (1963),
foi nalguns aspectos menos radical que os de Wollstonecraft, Taylor
ou Mill. Apesar da ideia implícita de Friedan de que a mulher é a classe
sexual sem poder, ela escreveu frequentemente como se as mulheres individuais
pudessem, através de simples esforço, atingir o poder da classe sexual
conhecida por “homem”. A sua tendência, pelo menos em The Feminine
Mistique, foi esquecer que isto é mais fácil de dizer do que de
fazer (Tong, Feminist Thought: a Comprehensive Introduction,
Boulder, Colorado, Westview Press, 1989, p. 22).
Tong criticou Friedan por não ter sido suficientemente exaustiva para
ver as barreiras que se colocavam às mulheres para encontrarem carreira
fora de casa. No entanto, várias anos mais tarde, Friedan remediou em
parte esta omissão com um segundo livro, The Second Stage:
Na primeira fase, o nosso objectivo foi a participação completa
(do movimento das mulheres), ... Mas fomos desviadas do nosso sonho.
E na nossa reacção contra a mística feminina, que definia as mulheres
apenas em termos da sua relação com os homens como esposas, mães ou
donas de casa, parecemos por vezes cair na mística feminista que negava
este centro de realização feminina que é o amor, a procriação e a casa
(Friedan, op. cit., 27).
Deste modo o principal do feminismo liberal/individualista incidiu na
remoção de barreiras que evitavam que a mulher competisse com o homem
numa mesma base salarial. Esta permaneceu a sua principal batalha, apesar
de muitas destas barreiras deixarem de existir. Ironicamente, uma interpretação
estrita do paradigma feminista liberal/individualista não e ajusta bem
ao pensamento feminista actual: Se as mulheres continuam a não se sentir
tão bem na vida pública como os homens, a responsabilidade é delas próprias.
Não podemos dizer que alguma desigualdade existente entre homens e mulheres
no local de trabalho possa ser atribuída a barreiras sexuais.
Esta questão é relevante em questões tais como o que é que acontece às
mulheres quando regressam ao trabalho após uma interrupção de vários
anos a criar os seus filhos. Algumas feministas defendem que elas devem
regressar com o mesmo nível salarial e hierárquico que teriam se não
tivessem interrompido. Eu considero esta posição feminista injusta por
três razões:
Primeiro, o empregador garante o nível hierárquico (teoricamente) não
na base da idade, mas na experiência e qualificação ganha. Uma pessoa
que esteve ausente do local de trabalho não adquiriu o mesmo nível de
experiência e qualificação. As feministas responde que ser mãe dá mais
experiência, o que é um argumento absurdo. Isto depende de que emprego
nos estamos a referir. Claro que ser mãe pode ser uma experiência relevante
para uma carreira de ama, cozinheira, enfermeira ou outro que lide com
crianças. No entanto, é irrelevante para uma carreira de escriturária,
técnica de laboratório, polícia ou mineira!
Segundo, o que fazer com pessoas que se ausente por outras razões? Seria
absurdo e injusto garantir-lhe a mesma evolução e salário dos colegas
que permaneceram no local de trabalho, mas seria igualmente absurdo
e injusto negar-lhes a facilidade dada às mães que regressaram.
Finalmente, as mulheres que têm crianças fazem-no (normalmente) voluntariamente,
e conceber crianças é uma ocupação, por si só, bastante recompensadora.
Não é como se alguém as forçasse. As feministas que acreditam que todos
os homens estão envolvidos numa conspiração perversa e patriarcal para
subjugar todas as mulheres são paranóicas.
Certamente que alguns homens sentem satisfação em serem o sustento da
família e serem esperados em casa pelas mulheres. Mas também é verdade
que as mulheres não são as únicas a escolherem entre as crianças e as
carreiras, e por outro lado aos homens estão vedados os prazeres da
maternidade, isto é, as mulheres têm a faca e o queijo na mão, especialmente
em caso de divórcio ou separação.
Chegou o tempo em que as feministas individualistas atingiram a maioria
dos seus objectivos nos países ocidentais. Um cínico pode acrescentar
que o feminismo está agora a sofrer da necessidade de uma nova reivindicação
para fazer. Certamente, uma vez que um movimento político atinge os
seus objectivos, estes objectivos tornam-se parte do seu estatuto e
o movimento tem assim liberdade de fazer uma introspecção para ver se
está completamente satisfeito, ou se pensa que podem ser feitos posteriores
melhoramentos.
Geralmente, quando os activistas atingem os seus objectivos políticos
tendem a descansar sobre os seus louros, havendo uma interrupção até
que cresçam novas gerações que tomem estes objectivos como garantidos
e pensem a fazer novas campanhas. No entanto, a recente institucionalização
e financiamento do feminismo perpétuo através de departamentos de estudos
sobre mulheres, ministérios de assuntos de mulheres e organizações de
mulheres financiadas pelo estado e por privados estão a contrariar esta
tendência.
Feminismo Socialista/Marxista
Discutirei também o feminismo socialista e marxista em parte porque ambos
sofreram com a queda da influência do socialismo e do marxismo no mundo.
Isto resultou do colapso da URSS e dos seus governos satélites na Europa
do Leste. Deste modo já não tem importância que justifique um tratamento
separado. Uma outra razão para os juntar é que algumas pessoas acham
que o feminismo socialista sucedeu ao feminismo marxista. Finalmente,
eles são muito semelhantes como Tong explica:
Enquanto
o feminismo socialista acredita que género e classe desempenham um papel
aproximadamente igual na explicação da opressão feminina, o feminismo
marxista acredita que a classe considera melhor o estatuto e função
das mulheres. No capitalismo, dizem elas, as mulheres da burguesia não
estão sujeitas ao mesmo género de opressão que estão as mulheres do
proletariado. O que é, então, diferente no feminismo marxista é que
este convida todas as mulheres, quer sejam proletárias quer sejam burguesas,
a compreender a opressão das mulheres não tanto como resultado de acções
intencionais individuais, mas como produto das estruturas política,
social, e económica associadas ao capitalismo (Tong: *Feminist Thought:
a Comprehensive Introduction, Boulder, Colorado: Westview Press,
1989, p. 39).
Foi o feminismo socialista, juntamente com o feminismo radical, que esteve
na vanguarda do feminismo de segunda vaga. O socialismo (incluindo o
socialismo/comunismo marxista) foi um movimento muito diversificado.
Com poucas excepções (tais como o escritor francês Proudhon), os socialistas
têm favorecido o feminismo desde o início. Há possivelmente duas razões
para isto: A primeira, o socialismo nasceu num estágio histórico posterior
ao individualismo, quando o feminismo era já uma ideologia conhecida;
a segunda, o socialismo era geralmente antagonista à família como instituição.
Este facto era atractivo para aquelas feministas que queriam desligar
as mulheres do seu papel tradicional na família.
Em muitas formas de socialismo, não havia direito da família possuir a
sua própria propriedade e passá-la às gerações futuras. Assim não havia
necessidade de criar as crianças em privado ou de ligar a mulher à casa.
Ironicamente, no entanto, se de todo não havia propriedade privada (isto
é, se não se tinha sequer direito ao seu corpo), então a violação, tal
como a conhecemos, seria legalmente impossível:
Qualquer
ideologia que rejeite todo o amor próprio não tem base para proibir
crimes tais como a violação, o roubo, ou o assassínio. Na sua raiz,
o altruísmo absoluto é crime: “Poderás negar a outro o uso do teu corpo
para aliviar o seu desejo sexual? Que egoísta!” “Não queres permitir
que outros tomem as tuas possessões para poderem ter um nível de vida
aceitável? Que malvado!” “Não permitis que outros sacrifiquem a tua
vida às suas boas causas? Que arrogante! (Van
Mechelen, 1991, www.backlash.com/book/abort.html)
Assim
crimes tais como a violação têm que ser definidos e entendidos em diferentes
termos, se é que existem.
Um dos trabalhos mais importantes do feminismo socialista tradicional
é o The Second Sex de Simone Beauvoir. Influenciada por Jean-Paul
Sartre, ela era uma existencialista tal com era marxista. O Woman
Estate de Juliet Mitchell (1971) foi outro trabalho de influência
marxista. Ela concorda com o esforço das feministas radicais para encorajar
as mulheres a analisarem a sua situação, mas pensa que os resultados
deste processo de análise precisa da sobreposição da teoria marxista
para fazer sentido.
Uma das principais questões das feministas marxistas é o trabalho doméstico.
Mantém que mesmo quando as mulheres têm empregos a tempo inteiro o seu
trabalho doméstico mantém-se inalterado e subvalorisado: Se as mulheres
não o fizerem livremente, alguém tem que ser pago para fazer as compras,
cozinhar, limpar a casa, cuidar das crianças, etc.. Mas as sociedades
capitalistas, afirmam elas, vêm as mulheres como meras consumidoras
(usando o dinheiro que os maridos ganham no seu trabalho).
Algumas feministas marxistas acreditam que as mulheres são oprimidas
porque são vistas basicamente como parasitas, o trabalho de casa é fácil
e de pouco valor. Apelaram assim à socialização e colectivização do
trabalho doméstico. Pretendem que as pessoas vivam em comunidade, e
assim criar crianças, cozinhar, e fazer trabalho doméstico é feito em
grande parte por trabalhadores pagos. Este trabalho terá um valor monetário
e o seu valor será oficialmente reconhecido, mesmo que continue a ser
feito maioritariamente por mulheres.
Outras marxistas feministas
argumentam que o trabalho da mulher em casa, na sua casa própria, deverá
ser remunerado. Esta remuneração deverá ser paga pelo governo. De acordo
com Tong (1989), no entanto, há outro ponto de vista do feminismo marxista
que considera que pagar às mulheres para fazerem o seu trabalho tem
três desvantagens:
1.
Faz com que as mulheres fiquem mais isoladas nas suas casas. O seu trabalho
será cada vez mais trivializado, quanto mais electrodomésticos estiverem
disponíveis. Deverão ficar cada vez mais presas da vida suburbana.
2.
O relacionamento da mulher com o resto da sua família será colocada numa
base comercial, quando muitos marxistas pretendem evitar aquilo que
eles chamam de tendência capitalista para pagar tudo.
3.
Será incrementada a tradicional divisão sexual do trabalho, tornando mais
provável que os homens vão trabalhar para fora de casa enquanto as mulhers
ficam em casa.
Feminismo Existencialista
Como referido acima, Simone de Beauvoir foi existencialista e marxista.
Isto leva autores tais como Tong (1989) a classificar-se como fundamentalmente
feminista existencialista, mais do feminista marxista.
Para entender completamente o feminismo existencialista, temos que entender
o existencialismo, e está fora dos objectivos deste livro entrar em
detalhes sobre a teoria existencialista. No entanto, a característica
essencial do feminismo existencialista é que toma as categorias positivas
e activas do existencialismo e aplica-as aos homens, e toma as categorias
negativas e passivas do existencialismo a aplica-as às mulheres, colocando
assim as mulheres em desvantagem e oprimidas.
Simone
de Beauvoir, em o The Second Sex, deu provavelmente a chave teórica
do feminismo do século XX, dando uma explicação existencialista da situação
da mulher. De Beauvoir argumentou que a mulher é oprimida devido a ser
“a outra”, porque é não-homem. O homem é o centro, livre, determinado
a definir o sentido da sua existência, e a mulher é a Outra, o objecto
cujo sentido lhe é determinado. Se a mulher se tornar o centro, o sujeito,
ela pode, tal como o homem, transcender as definições, as etiquetas,
e as essências que limitam a sua existência. Pode tornar-se naquilo
que quiser (Tong, Deam (1992), Don’t blame me, daddy – False accusations
of child sexual abuse: A parent’s tragedy, Norfolk, Virginia: Hampton
roads press, 6).
Feminismo cultural
O trabalho Woman in the Nineteenth Century de Margaret Fuller
(1845) foi o primeiro do feminismo cultural. O feminismo cultural tenta
persuadirnos de que o homem e a mulher não só são diferentes um do outro,
mas os valores das mulheres são superiores aos dos homens e como tal
devem suplantá-los. Por outras palavras é a supremacia feminina.
E sobre as mulheres mal comportadas? A maioria das feministas insiste
que isto é o resultado da socialização, educação e crescimento em sociedades
patriarcais. No entanto, pela mesma lógica, os aspectos supostos positivos
dos valores femininos devem provir da mesma fonte. Isto significa que
quer os aspectos positivos quer os negativos dos valores e comportamentos
das mulheres podem desaparecer como resultado de uma engenharia social
proposta pelas feministas culturais!
Enquanto as feministas liberais do século XIX se concentraram em questões
políticas e legais, as feministas culturais examinaram instituições
tais como religião, casamento, e lar. Olharam para a possibilidade de
igualdade política e legal entre homens e mulheres para provocar as
mudanças na sociedade que acreditavam que poderiam ou deveriam resultar
dessa igualdade. A ideia era de que o homem tem criado a desordem e
a mulher poderá fazer melhor na gestão do mundo.
Algumas feministas culturais acreditam no mito de um matriarcado primordial,
quando o pacifismo, cooperação, aceitação não violenta de diferenças,
e uma harmonização da vida pública estavam na ordem do dia. Isto estava
em contraste com a destruição, a tirania, e guerra que se supõem características
do patriarcado. Usando a palavra mito, não quero dizer que esta crença
seja necessariamente incorrecta, apenas que isto é assunto não provado
pela história, que é uma questão central para uma explicação da sociedade.
Incapazes de encontrar “matriarcados” actualmente, muitas feministas
refugiam-se na invenção de um paraíso matriarca idílico perdido nos
mitos obscuros da pré-história. Apesar de não haver evidência aceitável
para isto, ele tem sido aceite como facto dos Estudos sobre Mulheres
(www.patriarchy.com/~sheaffer/patriarchy.html).
O darwinismo social (Spencer, 1851) teve uma influência importante no
feminismo cultural. Esta teoria aplicou a noção quase darwiniana da
“sobrevivência do mais bem ajustado” às sociedades humanas, raças e
pessoas individuais. Isto implicou que qualquer sociedade bem sucedida
encontrou sucesso em virtude de ter características que a tornam mais
ajustada que as sociedades rivais. As sociedades podem ajustar-se de
vários modos, incluindo:
1.
Taxa de nascimentos;
2.
Taxa de mortalidade infantil;
3.
Longevidade;
4.
Produção de alimentos;
5.
População total;
6.
Área total de terra;
7.
Sucesso em guerras, etc.
O darwinismo social atribuiu alto valor à agressão masculina e competitividade.
Alguns darwinistas sociais têm mesmo favorecido competições assassinas
e guerra como mecanismos selectivos apropriados. No entanto, outra escola
de darwinismo social menos publicitada pensa tal como Charlotte Gilman
(1898), em Women and Economics, previu uma tendência diferente.
Acreditavam que a humanidade estava envolta numa organização colectiva,
que requeria mais ou menos competição, mais ou menos altruísmo ou egoísmo.
Feminismo psicoanalítico
O âmago do pensamento do feminismo
psicoanalítico é qualquer coisa deste género:
O feminismo psicoanalítico encontra a causa da opressão feminina embebida
no fundo da sua psique. ... O complexo de Oedipus, processo pelo qual
o rapaz encontra o seu primeiro objecto de amor na mãe, para escapar
à castração pelo seu pai. Como resultado de submissão do seu desejo
ao superego (consciência social colectiva), o rapaz está completamente
integrado na cultura. Juntamente com o seu pai ele cria regras sobre
a natureza e sobre a mulher, tendo ambos semelhante poder irracional.
Em contraste com o rapaz, a rapariga, que não tem pénis para perder,
separa-se lentamente do seu objecto de amor, a mãe. Como resultado,
a integração das raparigas na cultura é completa. A rapariga existe
na periferia ou à margem da cultura, como aquela que não regulamenta
mas é regulamentada, em grande parte porque ... teme o seu próprio poder
(Tong: *Feminist Thought: a Comprehensive Introduction, Boulder,
Colorado: Westview Press, 1989, p. 5).
A teoria psicoanalítica, no entanto, é altamente especulativa, e não suficientemente
refutável (no meu ponto de vista) para ser considerada uma teoria “científica”.
Além disto, há aqui aspectos que eu considero implausíveis, particularmente
a noção de que as mulheres estão menos integrados na cultura que os
homens. As mulheres atingem a maturidade (social e sexual) antes dos
homens, e adquirem normalmente uma mais completa interiorização das
normas culturais, isto é, são “melhor comportadas” que os homens. A
sociedade reflecte melhor os valores femininos que os valores masculinos
e dirige os comportamentos masculinos no sentido de suportar e proteger
as mulheres. A ideia de que a natureza se assemelha mais com a mulher
do que com o homem é também altamente discutível.
Feminismo radical
As feministas radicais tendem a rejeitar o Estado em si mesmo, para não
mencionar muitas instituições dentro dele, como uma estrutura patriarcal.
Elas acreditam que não seja uma instituição neutra que serve de mediadora
entre forças, nem um fórum dentro do qual as mulheres possam atingir
os seus objectivos políticos (como as feministas liberais pensam).
O feminismo radical é um produto da Segunda Vaga e retomou o trabalho
onde as facções anteriores o deixaram. Poucas das suas ideias foram
implementadas ao contrário do feminismo individualista ou do feminismo
socialista, no entanto:
Foi o
feminismo radical que foi teoricamente o mais inovador, rejeitando definições
tradicionais de políticas e teorias, enquanto condenava todas as teorias
anteriores como patriarcais. Ao contrário da aproximação marxista, não
se esforçou para incorporar mulheres na estrutura política preexistente,
tentou em vez disso mudar toda a nossa percepção de sociedade, e reestruturá-la
em termos de um conjunto radicalmente novo de conceitos centrados na
mulher. O seu objectivo tem sido formar novas identidades políticas.
Reclamar linguagem e cultura dos seus modelos masculinos e atingir poder
político significativo, reafirmar natureza humana e desafiar os valores
tradicionais (Coole, D. H., 1988: Women in Political Theory,
p. 235).
A principal diferença entre o feminismo radical e outros tipos de feminismo
é que o primeiro nega quaisquer diferenças psicológicas entre os sexos.
De acordo com este ponto de vista a criação e a educação eram tidas
como as causas dos diferentes comportamentos entre homens e mulheres.
E a função de uma criação e educação diferente entre homens e mulheres
era suposto ser o suporte da instituição de domínio masculino (patriarcado).
As feministas radicais reclamam a abolição de todos os papeis de diferenciação
sexual e a criação de uma sociedade androgínica.
Alguns feministas radicais ... perseguem
a lógica dos seus analistas até ao ponto onde um movimento unido de
mulheres de esquerda não conseguem compreender. No seu ponto de vista,
as capacidades fisiológicas das mulheres para a reprodução são análogas
à produção material da classe trabalhadora do marxismo tradicional.
As mulheres, constituem uma classe, do mesmo modo que os trabalhadores.
Como a classe trabalhadora se deve tornar uma classe por si própria
para controlar a produção, então também as mulheres devem ter controlo
sobre a sua reprodução para se tornarem livres. Uma extensão da analogia
de classe deve conduzir à ideia de destruição da classe previamente
dominante (o homem), ou pelo menos separar-se dela. As radicais exigem
que o lesbianismo seja considerado não apenas uma questão de liberdade
de escolha mas uma prática política essencial às feministas (Meehan,
Elizabeth (1990): British Feminism from the 1960s to the 1980s,
pp. 191-2).
Um dos trabalhas feministas mais conhecidos sobre sexualidade é The
Female Eunuch de Germaine Greer (1971). Este livro é um dos clássicos
do feminismo radical. É radical no sentido de que defendem o povo de
um modo ao qual Betty Friedan nunca chegou. Colocando a instituição
feminina em oposição à instituição masculina, como sugeriu Friedan,
não ajudaria muito as mulheres, de acordo com Greer.
Shulamith Firestone (1970), em The Dialect of Sex começou na
categoria do feminismo socialista e do feminismo radical. Este livro
é invulgarmente inteligente, claro, lúcido, e directo na sua aproximação
aos padrões feministas. Isto não significa, no entanto, que o que afirma
seja verdadeiro ou não distorcido. Ela provavelmente acabou em alguma
instituição psiquiátrica o que não considero grande surpresa.
Ela pensou que onde o feminismo radical e a biologia humana discordarem,
tem que ser a biologia humana a decidir! Por outras palavras, ela estava
suficientemente lúcida para ver alguns dos tipos de conflitos entre
a teoria feminista radical e a realidade, que eu notei, mas que tal
como muitos outros ideólogos, não se deteve a observar. Deste modo ela
estava relutante em aceitar as consequências negativas das suas crenças,
e as pressões sobre a sua sanidade mental deviam ter sido extremas.
As feministas mais recentes solucionaram estes problemas mentindo sobre
factos e perseguindo sociedades inteiras a acreditar em disparates completos
(como vimos em capítulos anteriores). Quando sociedades inteiras acreditam
em mentiras, chama-se a isto “ideologia”, “superstição” ou “religião”
e os indivíduos mantém a sua sanidade mental porque todos em volta estão
igualmente iludidos
Firestone baseou a sua análise nas afirmações seguintes, em parte incontroversas,
para que chamou a “família biológica”:
1. Que
as mulheres através da história antes da possibilidade de planeamento
familiar estavam constantemente sujeitas à sua biologia, menstruação,
menopausa, e “doenças femininas”, partos dolorosos constantes, amamentar
e cuidar de bebés, tudo actividades que as tornava dependentes dos homens
.. para a sobrevivência física.
2. Que
os bebés humanos precisam ainda de mais tempo para se criarem que os
outros animais, sendo assim incapazes de ajudarem, e até, pelo menos
durante um pequeno período, dependentes dos adultos para a sua sobrevivência.
3. Que
uma interdependência básica mãe/criança têm existido, de alguma forma,
em todas as sociedades do passado e do presente, e assim tem moldado
a psicologia de todas as crianças e mulheres adultas.
4. Que
as diferenças reprodutivas naturais entre os sexos conduziu directamente
à primeira divisão do trabalho na origem das classes, assim como no
aparecimento do paradigma de casta (discriminação baseada em características
biológicas) (ibid, 8-9).
Há uma imprecisão significativa no fim deste quarto ponto. Os termos “na
origem das classes” e “paradigma” parecem implicar que a divisão sexual
do trabalho foi uma précondição para o aparecimento dos fenómenos de
classe e casta. Firestone torna esta pretensão explícita (apesar de
não dar qualquer evidência para isso) na sua definição de materialismo
histórico:
Materialismo
histórico é a visão do curso da história que procura a causa e o motor
de todos os acontecimentos na dialéctica do sexo: A divisão da sociedade
em duas classes biológicas distintas para a reprodução, e a luta entre
estas classes, nas mudanças dos modos de casamento, reprodução e educação
de crianças no seio destas lutas, no relacionado desenvolvimento de
outras classes através de diferenças físicas (castas), e na primeira
divisão do trabalho (económica e cultural) baseada no sexo que se desenvolveu
no sistema de classes.
Apesar do seu crédito, Firestone desprezou os esforços de algumas feministas
para atribuir as causas destes factos a factores ambientais. Baseou-se
também a quase universalidade desta classificação na espécie humana
e outros animais. Se a causa está no ambiente, porquê tão poucas excepções?
É neste ponto que ela deixa de ser desapaixonada ou objectiva e começa
a vaguear numa lógica verdadeiramente obscura e pantanosa sobre “distorções
psicossexuais” da personalidade humana que se deduzem dos quatro factores
acima. Tem obviamente em mente, de forma implícita, uma “normalidade
psicossexual” feminista utópica. Considera-se claramente qualificada
para fazer estes julgamentos arrebatadores. Assume simplesmente que
quase todas as personalidades estão “distorcidas” e apenas ela e alguns
amigos são “normais”.
Tal como muitas feministas, ela considera esta vaga argumentação uma
base suficiente para provar a “tirania (dos homens, claro) sobre as
mulheres e as crianças”, que acredita ter uma base biológica. No entanto,
pensa ela, a tecnologia moderna torna isto falível tornando possível
derrubar a causa biológica da presente estrutura de poder sexual. Isto
é aonde chega a sua utopia psicossexual. Argumenta que as mulheres devem
tomar o controlo da “nova biologia populacional e de todas as instituições
sociais de ajuda e educação de crianças”. O mais radical na sua utopia
é que não deverá haver coisas tais como família ou comunidade, mas apenas
indivíduos desligados com relações esporádicas:
As diferenças genitais entre os seres humanos não devem ter implicações
culturais. A reprodução das espécies por um dos sexos em benefício dos
dois deveria ser (ou pelo menos existir como opção) substituída por
reprodução artificial. As crianças deveriam nascer igualmente para ambos
os sexos, ou independentemente dos dois ... a dependência das crianças
em relação à mãe (ou vice versa) deveria dar lugar a uma pequena dependência
em relação a outros pequenos grupos ... A divisão do trabalho deveria
terminar pela eliminação completa do trabalho (cibernética). (op.
cit.)
Pessoas como Geoge Gilder e Camille Paglia, por seu lado, consideram o
homem e a mulher essenciais um ao outro mesmo que as tecnologias futuras
possam tornar o sexo irrelevante (ver Van Mechelen, www.backlash.com/book/clones.html,
1992), mas este não é um assunto que eu queira discutir aqui. Um ponto
de vista mais tradicional das diferenças físicas entre homens e mulheres
pode ser caracterizado do seguinte modo:
(1) As pessoas nascem com hormonas, anatomia, e cromossomas quer de homem
quer de mulher; (2) As mulheres estão destinadas a ter um papel reprodutivo
mais incómodo que os homens; (3) Os homens, apesar de iguais noutros
aspectos, devem exibir traços psicológicos “masculinos” (por exemplo,
firmeza, agressividade, dureza, racionalidade ou capacidade de pensar
logicamente, capacidade abstracta ou analítica de controlar as emoções),
enquanto as mulheres devem, apesar de iguais noutros aspectos, exibir
traços psicológicos “femininos” (por exemplo, gentileza, modéstia, humildade,
disponibilidade para ajudar, empatia, compaixão, ternura, capacidade
educativa, intuição, sensibilidade, generosidade); e (4) a sociedade
deve preservar esta ordem natural, assegurando-se de que os seus homens
permanecem “masculinos” e as suas mulheres “femininas” (Tong, Deam (1992):
don’t blame me, daddy – False accusations of child sexual abuse: A parent’s
tragedy. Norfolk, Virginia: Hampton roads press)
Não sou médico nem biólogo, mas geralmente aceita-se que no espectro das
características biológicas e influências hormonais haja uma larga gama
de “masculinidade” entre os homens, e uma larga gama de “feminilidade”
entre as mulheres. Deste modo não há pessoas 100% homens nem 100% mulheres,
mas graus de masculinidade e feminilidade. (ver Brain Sex: The Real Difference Between Men and Women, Moir
& Jessel, 1993)
É também possível alterar cirurgicamente a anatomia das pessoas juntamente
com o seu equilíbrio hormonal. Germaine Greer, por exemplo, disse na
televisão que assim que começou a tomar testosterona (hormona masculina)
como tratamento para a menopausa começou a conduzir agressivamente o
carro, como um homem! Assim, se podemos corrigir artificialmente as
nossas características sexuais primárias e secundárias, temos justificação
para o fazer? E em que circunstâncias? Tendo aptidão tecnológica, a
questão mais importante levantada pelas feministas radicais é se a sociedade
tem obrigação moral de a) manter a divisão sócio-biológica entre homens
e mulheres, como aspecto positivo em si mesmo; b) usar todos os meios
de engenharia social e biotecnológica à disposição para reduzir, ou
mesmo eliminar as diferenças físicas e sociais entre homens e mulheres,
tendo em conta que estas diferenças foram ultrapassadas pela biotecnologia
e conduzem a desigualdades sociais; ou c) considerar que a diferenciação
dos seus cidadãos em homens e mulheres não tem significância moral.
Eu defendo a opção c). A raça humana tem controlado o seu ambiente a
par com muitas preocupações com a sua destruição. Podemos chegar ao
mesmo ponto com a nossa sociabilidade, anatomia, personalidade e fisiologia.
Em áreas tão diversas como espécies animais e vegetais, culturas humanas
e linguagens, a tendência do “politicamente correcto” é a preservação
da diversidade no seu próprio interesse. No que respeita à nossa crescente
capacidade para eliminar diferenças entre os sexos, pode ser politicamente
correcto querer preservar este tipo de diversidade, tal como os outros
tipos de diversidade referidos acima.
Logo que os humanos tenham poder de mudar mais ou menos aspectos de
si próprios, tal como o fazem no ambiente, o verdadeiro objectivo da
existência humana é posto em causa. Uma coisa que não podemos criar
cientificamente para nós próprios, é os valores que precisamos para
criar as nossas acções, porque podemos acabar por cair nos valores tradicionais,
por falta de algo melhor.
Não podemos confiar apenas no feminismo para nos dar orientação moral
na entrada deste tentador novo mundo. Uma das principais fraudes do
feminismo, especialmente do feminismo radical, é a noção de que há qualquer
coisa de intrinsecamente inferior no papel tradicional de dona de casa
e mãe. Esta atitude deriva em parte do facto de não constituir emprego
pago, mas não é racional assumir simplesmente que o trabalho assalariado
é necessariamente mais realizador ou válido que o de dona de casa. Considere
o valor colocado em férias mais longas ou semanas de trabalho mais curtas
em certos países. Se é tão desejável permanecer menos tempo no trabalho,
como pode ser desejável para as mulheres terem um emprego fora de casa.
Parece uma contradição.
Um dos trabalhas feministas mais influentes dos últimos tempos foi o
Sexual politics de Kate Millet. A sua tese central é que podemos
caracterizar o relacionamento entre os sexos em termos políticos. Esta
aproximação aparentemente deriva originalmente de Wilhelm Reich, e está
correcta. No entanto, será mais razoável ser mais equilibrado que as
feministas sobre o relacionamento político actual que existe entre os
sexos. Millet parte das seguintes assunções:
1. Os
Estados Unidos (e países semelhantes) são “patriarcas”;
2. Isto
é evidente tendo em conta o facto de que os políticos não principalmente
homens;
3. Este
poder dos homens sobre as mulheres aplica-se a todos os aspectos da
sociedade, incluindo a família.
Millet não faz estas reivindicações de forma clara e explicita, mas é
evidente que acredita nelas. O feminismo estabeleceu-se numa tal extensão
que estas crenças são vistas popularmente como uma evidência através
de todo o mundo ocidental. Além disso, Millet considera-as aplicáveis
a todas as sociedades, e não apenas aos EUA.
Os dois conceitos que tipificam
o feminismo radical são as máximas teóricas “o pessoal é político” e
o seu corolário prático, “elevação da consciência”.
Dentro do grupo da elevação da consciência a experiência de cada pessoa,
cada história de vida de uma mulher é matéria de interesse. Percebemos
que ouvindo uma experiência individual podemos ter uma visão mais completa
de como a sociedade se juntou. A política sexual dá um entendimento
de como a sociedade trabalha quer a nível ideológico e a nível material
e aprofunda o entendimento que a esquerda tem da experiência humana.
Os movimentos de libertação das mulheres construíram uma análise da
sociedade com base nos pormenores da experiência de vida individual.
Isto alargou e desafiou o entendimento prévio da base social, económica
e política da sociedade. (Luise Eichenbaum and
Susie Orbach: Outside In. Inside Out. Women’s Psychology: A Feminist
Psychoanalytic Account, Harmondsworth: Penguin, 1982, p. 12)
Poderei comparar este processo à recolha de dados para provar uma hipótese
científica, com a principal diferença de que a elevação da consciência
construiu tendenciosidade que pode ser facilmente demonstrada fazendo
a pergunta ”Em quantos grupos de elevação de consciência é que as feministas
permitiram que os homens discutissem quanto foram oprimidos pelas mulheres
durante a sua vida?” por outras palavras, a “elevação de consciência”
é um sinónimo de “lavagem ao cérebro”, “instrução” ou “conversão”. A
teoria feminista radical (política sexual, concebida pelas feministas)
deu uma base para as feministas reinterpretarem as suas vidas do modo
que as religiões fazem nas conversões.
Feminismo pós-moderno / Feminismo
francês
Um cínico pode caracterizar o feminismo pós-moderno como um estágio ou
tipo de feminismo que tem a virtude de estar dividido e aparentemente
sem direcção:
As feministas
pós-modernas preocupam-se porque o feminismo pretende ser uma teoria
explicativa, ela ... corre o perigo de dar uma explicação do porquê
da mulher ser oprimida, ou dez passos que todas as mulheres devem tomar
para encontrarem a verdadeira libertação. (Tong:
*Feminist Thought: a Comprehensive Introduction, Boulder, Colorado:
Westview Press, 1989, p. 217)
O feminismo é incapaz de fazer isto. De facto, nenhuma feminista demonstrou
objectivamente que as mulheres sejam (mais) oprimidas (que os homens),
e que por isso precisem de ser “libertadas”. Uma tal demonstração objectiva
é uma condição prévia para a teoria explicativa que lhes falta. A natureza
dividida do pós-modernismo é o resultado inevitável do facto de nenhuma
das várias facções do feminismo ter sido capaz de construir uma teoria
explicativa. Por seu turno, esta cisma criou um ambiente no qual o chamado
“movimento reaccionário” tem emergido.
Estudos sobre mulheres
Os “estudos sobre mulheres” é uma
matéria académica curiosa. Em parte porque é nova, mas principalmente
porque tem mais em comum com treino teológico ou ideológico, que com
outras disciplinas académicas em (digamos) ciências sociais.
Os estudos sobre mulheres, tal como
o próprio feminismo, apresenta duas aproximações à questão de desigualdade.
Uma aproximação, usando evidência antropológica, biológica, histórica
e psicológica, pretende que as mulheres não são essencialmente diferentes
dos homens, e por isso numa sociedade estruturada de modo diferente
deverá ser possível fazer desaparecer divisões baseadas nas diferenças
de sexo, deixando-nos com uma sociedade igualitária. A outra aproximação
pretende que as mulheres são essencialmente diferentes dos homens e
que esta desigualdade resulta de uma desvalorização das actividades
e características femininas.... Os estudos sobre mulheres podem assim
ser vistos como estando ligados a dois conceitos de igualdade, que podemos
chamar “plenamente igual” ou “igual mas diferente”. Os tipos de problemas
envolvidos na tentativa de conciliar as duas aproximações podem ser
demonstradas por.... (Ruth, Issues in Feminism: A First Course in Women’s Studies*,
Boston: Houghton Mifflin, 1980, p. 5)
É uma característica da ideologia de um movimento social tentar “conciliar”
contradições na tentativa de maximizar a influência política do movimento.
Disciplinas puramente académicas, por seu lado, tendem a focar-se em
contradições na tentativa de chegar a uma conclusão de qual a teoria
que está correcta.
Porque os estudos sobre mulheres não constituem verdadeiramente matéria
académica, não podemos esperar que sejam examinadas objectivamente questões
tais como a opressão dos homens na sociedade, a sua opressão pelas mulheres,
e como são mais oprimidos que as mulheres. Os estudos sobre mulheres
tomam a opressão das mulheres (pelos homens ou pela “sociedade”) como
uma verdade própria que nenhuma pessoa tem o direito de pôr em questão.
Mesmo os professores de estudos sobre mulheres admitem esta tendenciosidade,
devido a uma acção política, mais do que rigor académico:
As ideias,
métodos, currículos, e teorias dos estudos sobre mulheres exibem uma
grande diversidade e resistem a uma definição fácil. Aqueles que trabalham
actualmente em estudos sobre mulheres têm chamado a isto variedade de
processos, campo de investigação, perspectiva crítica, centro de acção
social, e/ou apoio dos movimentos femininos. É tudo isto e ainda mais.
(ibid, p. 3).
Ruth
está consciente da tendenciosidade dos estudos sobre mulheres. Ela responde
que a tendenciosidade masculina (que chama de “masculino-ismo”, “masculismo”
ou “androcentrismo”) tem sido sempre uma característica da sociedade.
Pode bem ser, mas provar que muitos académicos masculinos têm sido tendenciosos,
não prova que os estudos sobre mulheres não o sejam, nem isto justifica
que o sejam.
O criticismo feminista está a expor a tendenciosidade masculina, não a
criar uma feminina, como é acusado. Os estudos sobre mulheres procuram
ser a profilaxia da tendenciosidade, não a causa. (ibid, 9).
Os activistas de direitos dos homens não são responsáveis por terem existido
homens tendenciosos. Não precisamos de defender a tendenciosidade masculina,
onde exista. Se as feministas expuserem alguma tendenciosidade masculina,
isto não é mau. Um dos objectivos deste livro é revelar casos de tendenciosidade
feminina. Aqui ficam alguns exemplos referidos neste livro:
1. A definição de poder político e identificação de quem o possui;
2. Atitudes contra a circuncisão feminina, ignorando ou apoiando a masculina;
3. Avaliação
dos papeis femininos e masculinos no contexto da legislação sobre violação;
4. A disseminação e interpretação dos factos relativos a violência doméstica;
5. A disseminação da informação de vários tipos de abuso de crianças;
6. A avaliação dos sistema legal no tratamento dos homens e mulheres;
7. A avaliação dos assuntos de emprego que envolvem homens e mulheres;
8. A
compilação e disseminação das estatísticas das Nações Unidas sobre igualdade
sexual;
9. A escolha dos assuntos onde pretendem igualdade sexual;
10. A definição de igualdade sexual.
É também interessante notar o que Ruth (1980) vê como sendo o objectivo
do seu campo:
Os estudos
sobre mulheres procuram ... mudar nas mulheres o sentido de si próprias,
a nossa própria imagem, o nosso sentido de dignidade e direitos, a nossa
presença no mundo, mudar as aspirações das mulheres, baseado num crescente
sentido de auto-confiança e amor próprio, permitir às mulheres criarem
para si próprias novas opiniões nos nossos próprios objectivos assim
como nas nossas obrigações e/ou contribuições para a sociedade modificar
as relações entre mulheres e homens, criar verdadeira amizade e respeito
entre os sexos em vez de “guerra entre os sexos dar a todas as pessoas,
mulheres e homens, um sentido renovador de valor humano, restituir ao
ser humano o amor pela beleza, simpatia, justiça, e qualidade de vida
para reafirmar em sociedade a busca de harmonia, paz, e compaixão humana.
(op. cit., 9).
Destes objectivos, devo caracterizar os dois primeiros como arrogantes
e os outros ingénuos e hipócritas. O que os dois primeiros implicam
é que as mulheres tenham um sentido incorrecto de si próprias e aspirações
incorrectas. Os professores de estudos sobre mulheres são, ao que parece,
uma raça superior de mulheres, que sozinhas conhecem o que as mulheres
devem sentir sobre si próprias e o que devem ser as suas aspirações!
É difícil pensar em alguém, que não seja um líder religioso, que tenha
a arrogância de reclamar esta espécie de conhecimento superior. Os últimos
dois objectivos são tão ingénuos e vagos, como absurdos, em qualquer
contexto, excepto, talvez o de um culto religioso.
Uma coisa é descobrir que um grupo é oprimido no sentido de que lhe
é negado coisas que quer e são permitidas a outros grupos sociais. Outra
coisa é ser um activista que quer alguma coisa para si próprio, que
descobre que outros membros do grupo não têm os mesmos desejos, e que
tenta então persuadi-los a querer as mesmas coisas que ele/ela quer.
Onde adquiriram os professores dos estudos sobre mulheres estes valores
“superiores” que querem que as mulheres adoptem? A resposta é que os
adquiriram dos homens. As feministas são intelectualmente maria-rapazes.
Interiorizaram de algum modo a ideia de que o que os rapazes e os homens
tradicionalmente têm ou fazem, é de algum modo superior (em vez de ser
diferente) ao que raparigas e mulheres tradicionalmente têm ou fazem.
Não estou seguro que a origem desta ideia, seja outra a não ser mulheres
frustradas da classe média. Estas feministas são psicologicamente transexuais
que querem converter tantas mulheres quanto possível ao seu modo de
pensar masculino de modo a que deixem (as feministas) de parecer uma
minoria peculiar. Nos países ocidentais, tiveram um grande sucesso.
Pretender que as feministas querem por fim à “guerra entre os sexos”
é simplesmente hipócrita: As feministas começaram a guerra, e as únicas
condições para aceitarem um cessar fogo é a vitória total para si próprias.
De facto, não há qualquer possibilidade realista de uma sociedade alcançar
um estado que possa satisfazer todas as feministas.